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“A gente precisa se ver na tela”: a etnografia como um jeito de olhar a cidade

Foto do escritor: Renata Melo
Renata Melo
há 2 horas
5 min de leitura

Na minha pesquisa, refleti sobre o papel dos cineclubes da Baixada Fluminense na produção de novas representações sobre a periferia e de vínculos que sustentam essa territorialidade

Artigo produzido para a coletânea Opina Rio (número 9), coordenada por Bruno Leonardo Barth Sobral


Era uma noite de quarta-feira, 11 de dezembro de 2019. Eu e mais de 50 pessoas tínhamos um encontro marcado no Gomeia Galpão Criativo para uma sessão do Mate com Angu, cineclube de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Há quem imagine a região como um lugar puramente de ausências, mas quem já curtiu uma noite no Mate sabe que a Baixada é muito mais.

 

Por volta das 19h, o público foi chegando: jovens, em sua maioria, com cabelos coloridos, dreads, black power, bonés. Vestiam jeans, camisetas com arco-íris, símbolos dos coletivos dos quais faziam parte ou frases emblemáticas estampadas: “a periferia grita”. Em contraste com a movimentação anterior à exibição dos filmes, chamou minha atenção um grupo destacado dos demais, pessoas esperando calmamente, sentadas em cadeiras de plástico posicionadas em frente ao telão, olhando seus celulares ou vigiando crianças ao redor. 


Favela Cineclube foi convidado pelo Mate com Angu para curadoria dos curtas que abriram a sessão. Mas a atração principal daquela noite foi um documentário de 65 minutos que deu nome e imagem aos cartazes de divulgação: NuFlow: batalhas de rima e slams RJ. Assinam a direção dois jovens da Baixada: José Alsanne e Laís Dantas. Ambos fazem parte do Canal Plá, produtora audiovisual fundada em 2015. O filme foi anunciado e muito festejado como o primeiro longa da produtora. A escolha por lançá-lo no Mate com Angu não foi por acaso, mas reflexo de uma relação próxima dos seus idealizadores com o cineclube. 


Em NuFlow, somos guiados pela atriz Adrielle Vieira, que percorre lugares da Baixada, Niterói, Complexo do Alemão, Zona Norte e Zona Sul do Rio de Janeiro para apresentar slams de poesia e a cena hip hop dessas regiões. A costura entre essas regiões apresentada na tela revela o olhar de um circuito sobre outro: o audiovisual olhando para o rap e a poesia. 


O filme nos apresenta a fenômenos fundamentalmente urbanos, o que se evidencia na paisagem capturada e em suas cenas de movimentação nas ruas por onde a protagonista caminha de um ponto a outro, entre passarelas, trens, muros pichados, praças coloridas, onde se vê intensa circulação de pessoas. A estética é marcada por cores fortes presentes na cenografia e na indumentária, principalmente amarelo, laranja e azul.


O enquadramento das cenas e a edição do filme enfatiza a “vida nervosa” das grandes cidades das quais nos falou o filósofo e sociólogo Georg Simmel. As imagens são marcadas por simultaneidades, cenas sobrepostas, falas e movimentos repetidos, acelerados, como um curto-circuito. É como se a cidade e os movimentos culturais apresentados se fundissem, interpenetrando-se. A trilha sonora contribui para essa ambientação, trazendo principalmente o hip hop, com músicas da protagonista Adrielle e do rapper Marcão Baixada. A trilha é composta também por cantigas de Candomblé de domínio público, evidenciando a valorização de tradições relacionadas à cultura negra. 


O nome do documentário é uma referência ao flow, que vem do inglês, fluir, e diz respeito à forma como um rapper encaixa suas rimas na parte instrumental que dá base para o improviso, o beat. Estar nu flow é estar encaixado, fluindo com o ritmo e o seu entorno. Embalada por esse movimento, Adrielle participa das rodas que visita como observadora, narradora e poeta, fazendo dos seus versos um guia para o filme. Com base em conversas com artistas de cada lugar, ela reflete sobre racismo, gênero e cidade.


Foram cerca de seis meses de gravação e mais de um ano e meio para finalizar o documentário, cujas últimas edições foram feitas pouco antes da pré-estreia. Enquanto era preparada a projeção, alguém trazia o arquivo do filme. Foi quando um dos fundadores do Mate com Angu, HB, disse ao microfone, como se narrasse um parto: “Aqui é com emoção! Filme chegando literalmente agora, filme sendo trazido nas mãos, literalmente”.


Anunciada como “uma noite para renovar a alma”, a sessão foi embalada por emoções e expectativas desde sua divulgação. Na tarde daquele dia, quem entrasse nas redes sociais do cineclube leria: “Hoje vamos ter cinema produzido na Baixada estreando no Cineclube Mate com Angu. Nada nos deixa mais feliz”. 


De fato, a sessão foi emocionante. Nas exibições, costumo olhar ao meu redor no apagar das luzes, como uma Amélie Poulain tropical, que volta os olhos pra trás quando vai ao cinema. Isso faz todo sentido na antropologia, porque uma pesquisa etnográfica sobre cineclubes precisa ir além da análise de filmes: interessa pensar sobre as relações sociais que daí se desenrolam.


Quando o filme é exibido na tela, é possível captar olhos atentos ou dispersos, pequenos gestos, um abraço, um encostar de mãos, um comentário com quem está do lado, semblantes comovidos ou confusos. Naquela noite, a plateia parecia tomada pela eletricidade das rimas, ruas e cores das cenas, o público mergulhava na tela, num diálogo interno inescrutável, mas que de algum modo transbordava.


Assim como nas rodas de rap, a partilha e as trocas proporcionadas por um lugar comum são o que dão sentido à existência do cineclube. Isso ficou evidente quando, ao final da exibição do filme, seus realizadores se levantaram, dirigindo-se ao público. Adrielle e os diretores agradeceram calorosamente à plateia, que, em resposta, aplaudia. Foi quando entendi que os familiares das realizadoras eram aquelas pessoas que estavam sentadas aguardando a sessão desde cedo. Laís agradeceu o apoio da namorada, da família, dos amigos e do cineclube. Descreveu HB e Igor como padrinhos. Por fim, contou uma história: 


“Minha mãe não entendia por que eu ficava direto no computador. Um dia filmei ela e coloquei na internet. No dia seguinte, minha mãe me acordou com um “bom dia, minha cineasta” (gargalhadas dela e do público). É isso, cara. A gente precisa se ver na tela, a gente precisa se ver.”


A cena se inverteu e dessa vez era a mãe quem filmava enquanto a filha falava. A gravação foi interrompida para um abraço. A parábola de Laís sintetizou a emoção provocada pelo filme entre os presentes: ver artistas da Baixada na tela era uma forma de ver a si mesmo. HB chorava, enquanto dizia à pessoa do seu lado: “minha aluna, cara, minha aluna”.


Ao meu redor, lágrimas corriam. Mas logo tudo virou riso, quando as cadeiras foram afastadas para os cantos e o espaço se tornou uma pista de dança, embalando o que desde o início era uma festa. Tive certeza, então, de que uma pesquisa antropológica pede mais que um punhado de métodos e teorias, é preciso se deixar afetar, seguindo o conselho da antropóloga Jeanne Favret-Saada. 


Você que me lê pode estar pensando: ok, tudo muito bonito, mas o que essa historinha tem a ver com ciência? Na antropologia, a história que nos trouxe até aqui é chamada de relato etnográfico. Ela é parte da minha tese de doutorado e fruto de um processo de observação e descrição que tem como objetivo produzir interpretações sobre questões sociais. Pra quem, como eu, tem interesse em pensar sobre fenômenos urbanos, é um jeito de olhar e de tentar entender a cidade. E, sim, é tudo em primeira pessoa, sem falsas neutralidades.


Na minha pesquisa, refleti sobre o papel dos cineclubes da Baixada Fluminense na produção de novas representações sobre a periferia e de vínculos que sustentam essa territorialidade. Tentei fazer isso de uma forma sensível, estimulando aquilo que Wright Mills chamou de imaginação sociológica. Publiquei uma parte desse trabalho na edição n.30 da Revista Cadernos do Desenvolvimento Fluminense e te convido a mergulhar etnograficamente comigo numa noite de cineclube na Baixada Fluminense. Até lá! 

 

Renata Melo é pesquisadora do Urbano - Laboratório de Estudos da Cidade, grupo de pesquisa em ciências sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).


Crédito da foto da página inicial: Divulgação/5º Festival Mate com Angu de Cinema.

 

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