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Desenvolvimento regional: uma análise com indicadores multidimensionais do estado do Rio de Janeiro em 2010

  • Foto do escritor: Caroline Miranda, Lia Hasenclever e Fábio Freitas
    Caroline Miranda, Lia Hasenclever e Fábio Freitas
  • há 11 minutos
  • 5 min de leitura

A pesquisa demonstra que o bom desempenho econômico, medido pelo conhecido Produto Interno Bruto (PIB), nem sempre se reflete em melhores condições de vida dos municípios fluminenses

Artigo produzido para a coletânea Opina Rio (número 8), coordenada por Bruno Leonardo Barth Sobral


Os indicadores tradicionais de desenvolvimento, com base somente no produto interno bruto (PIB), desde há muito tempo não são considerados uma métrica adequada para alcançar o bem-estar. Por esse motivo, a principal contribuição do artigo foi trazer uma perspectiva alternativa às visões tradicionais e contemporâneas de desenvolvimento embasada em concepções teóricas seminais de, por exemplo, Amartya Sen, Celso Furtado e Georgescu-Roegen.

 

As referidas concepções visam a alargar o conceito de desenvolvimento para além da dimensão econômica, incluindo indicadores que captam melhor o bem-estar e a qualidade de vida. De fato, o bem-estar é multidimensional e inclui padrão material de vida (renda, mas também consumo e riqueza), saúde, educação e ambiente (condições presentes e futuras).

 

O objetivo é investigar em que medida os indicadores de emprego e renda tradicionais e mesmo os de educação e saúde dos municípios do estado do Rio de Janeiro (ERJ), ao se considerar outras dimensões econômicas, de saúde, de educação e ambiental, ratificam ou não os desempenhos mensurados pelos indicadores tradicionais.

 

Com base na perspectiva proposta de inferir o desenvolvimento fundamentado em indicadores multidimensionais, obtiveram-se resultados diferentes dos tradicionais indicadores de renda per capita ou mesmo do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que já incorpora as dimensões de saúde e educação, além das de renda e emprego.

 

De fato, foi possível notar, por exemplo, que municípios ranqueados com melhor desempenho na dimensão econômica – Rio de Janeiro, Niterói, Campos dos Goytacazes e Macaé – perdem posição na dimensão síntese quando se agregam aspectos relativos à dotação de fatores iniciais da população, tais como o índice de Gini. Isso ocorre porque a alta concentração de renda per capita domiciliar observada nesses municípios os impede de serem classificados como desempenho econômico superior no mapa síntese da dimensão econômica.

 

Com tais municípios, fica claro que o dinamismo econômico e o protagonismo no que diz respeito aos indicadores tradicionais de renda e emprego não acompanharam a distribuição de riqueza. Outros municípios, como Barra Mansa e Nova Friburgo, embora não apresentassem as melhores posições no ranking de emprego e renda, ostentavam indicadores de distribuição de riqueza melhores, resultando em um desempenho superior no mapa síntese da dimensão econômica.

 

Na dimensão social, pôde-se notar diferenciais de desempenho em cada indicador da dimensão social em Campos dos Goytacazes e Macaé, por exemplo, os dois municípios mais importantes da Região Norte Fluminense. Isso mostra que, apesar de ambos estarem localizados na mesma região e desfrutarem dos royalties do petróleo da mesma forma, Macaé oferece melhores condições sociais de vida para seus moradores do que Campos dos Goytacazes. Cabe especular se essas diferenças poderiam estar relacionadas com o uso que cada prefeitura tem feito dos royalties do petróleo recebidos por cada município, mas não só, refletem também a desigualdade da distribuição inicial dos fatores saúde e educação entre os munícipes.

 

Para Rio de Janeiro e Niterói, todos os indicadores da dimensão social foram ranqueados na posição de desempenho mais avançada. Em parte, esse resultado pode ser atribuído à maior centralidade desses municípios, à efetividade das políticas de saúde e educação, bem como à superioridade da urbanização e da justiça racial. Além disso, são cidades mais cosmopolitas e oferecem condições sociais de vida para seus moradores superiores às das demais cidades. Outras exceções são os municípios de Resende e Nova Friburgo, para os quais se pode especular que uma das razões é a centralidade da indústria, outro fator relevante da crescente urbanização e melhoria da qualidade de vida nas cidades.

 

Na dimensão ambiental, observou-se que Campos dos Goytacazes tem os piores resultados, provavelmente decorrentes de sua antiga especialização rural, sobretudo em cana-de-açúcar, que implica a queima de plantações e o amplo uso de agrotóxicos. O esgoto não tratado também pode refletir as condições de vida precárias dos trabalhadores rurais desse município.

 

Já Niterói, com todos os indicadores superiores, obteve resultado condizente com as destacadas políticas ambientais e de saneamento do município, demonstrando ser possível urbanizar e industrializar desde que as políticas públicas não deixem ao mercado as decisões de localização, mas estabeleçam regulamentações e indiquem a direção desejada para a melhoria da qualidade ambiental.

 

Um ponto que chama a atenção em relação aos resultados observados para Campos dos Goytacazes, sobretudo no que diz respeito às condições ambientais de vida da população, é o contraste entre o desempenho superior em emprego e renda e o desempenho inferior em moradia inadequada e esgoto não tratado. Essa constatação mostra que bom desempenho econômico nem sempre se reflete em melhores condições de vida. Esse resultado é corroborado pelo alto índice de trabalho análogo à escravidão observado no município.

 

Aplicando-se a metodologia de indicadores multidimensionais aos municípios do ERJ, os resultados encontrados parecem confirmar a hipótese empírica de que nem sempre as regiões com melhores indicadores econômicos são aquelas em que o desempenho das demais variáveis acompanha sua posição de liderança nesse quesito. Esse achado sugere que a visão clássica de desenvolvimento, baseada em indicadores de renda e emprego, mesmo quando ampliada para saúde e educação, é insuficiente para caracterizar um quadro de qualidade de vida e bem-estar das populações.

 

Em termos de lições, o que o artigo traz para os leitores e gestores públicos é que ainda há muito a se melhorar no ERJ. Em relação aos indicadores econômicos, com ênfase no que diz respeito à distribuição de riqueza entre os municípios, as políticas de distribuição da riqueza precisam ser pensadas ao lado do padrão de produção altamente especializado em petróleo, uma atividade concentradora de capitais e excludente de trabalhadores com baixa qualificação.

 

Além disso, observou-se que a forte dependência da agricultura em alguns municípios os leva a ter resultados piores na dimensão ambiental, a exemplo de Campos dos Goytacazes, e isso se reflete em condições de vida precárias para seus habitantes. E ainda, como corolário, percebeu-se que as políticas públicas sociais e ambientais são indispensáveis. É necessário que, junto à urbanização e à industrialização, sejam mitigados os efeitos sociais e ambientais deletérios que impedem os municípios de atingirem níveis mais elevados de desenvolvimento sustentável em suas dimensões econômica, social e ambiental.

 

A metodologia adotada neste artigo para a construção do indicador multidimensional, entretanto, ainda não permitiu cruzar os efeitos das três dimensões. Ela foi capaz de mostrar apenas que os resultados de cada dimensão são variáveis quando se acrescenta ao PIB per capita e ao IDH dimensões de dotação de fatores iniciais, bem como se agrega o aspecto ambiental. Convidamos a comunidade acadêmica à leitura do artigo e esperamos ouvir contribuições para sua melhoria!

 

Caroline Miranda – Universidade Cândido Mendes de Campos de Goytacazes (UCAM-Campos) e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

Lia Hasenclever – Universidade Cândido Mendes de Campos de Goytacazes (UCAM-Campos) e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

Fábio Freitas - Universidade Cândido Mendes de Campos de Goytacazes (UCAM-Campos)

 

 Crédito da foto da página inicial: Portal Fluminense - Rio Paraíba do Sul atinge 8,13 metros em Campos dos Goytacazes (10/02/2026)

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