Até quando nossas cidades serão entupidas com automóveis?

Ranking de congestionamento aponta que Curitiba é a capital onde mais se perde tempo no trânsito; Recife, a que tem maior nível de congestionamento – isso sem falar no caos de São Paulo e Rio de Janeiro
Estamos em campanha eleitoral, às vésperas do pleito de 4 de outubro, e entre os postulantes a cargos no Executivo e no Legislativo são raros os que propõem enfrentamento para um dos problemas que mais impactam a qualidade de vida nas cidades brasileiras: a mobilidade urbana. Ruas e avenidas de grandes e médias cidades estão entupidas de automóveis, e pelo que se vê a tendência é a de o país continuar a privilegiar medidas que estimulam o uso do transporte individual, em detrimento do coletivo.
O caos no trânsito não se limita a metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro. Pelo contrário. Diferentemente do que pode sugerir o senso comum, nem são essas duas cidades as que registram os piores indicadores de congestionamentos, segundo o TomTom Traffic Index, estudo feito pela startup TomTom, de origem holandesa e atuação global.
O relatório da empresa para o Brasil aponta Curitiba como a capital onde mais se perde tempo em engarrafamentos: 135 horas por ano. É como se, dos 365 dias do ano, pelo menos cinco fossem vividos dentro de um fluxo lento ou parado. No horário de pico, em período de 15 minutos, a distância percorrida é de apenas 4,1 quilômetros. Em São Paulo, segunda colocada (132 horas por ano), a distância percorrida nas mesmas condições é de 4,2 quilômetros.
No critério “nível de congestionamento”, a liderança do ranking cabe ao Recife: 64,7%. Porto Alegre (59,6%) e Belo Horizonte (58,6%) vêm em seguida. A capital paulista é a quarta colocada, com 58,5%, e Rio de Janeiro a quinta (57,8%).
· Para sabe mais, acesse https://www.tomtom.com/traffic-index/country/brazil/
Sequelas desse problema são percebidas em todas as áreas. No meio ambiente, poluição, consumo excessivo de combustíveis e fontes de energia. Na saúde, a poluição adoece, o tempo preso no trânsito gera cansaço, irritação, estresse. Na segurança, riscos de acidentes e brigas. No social e na economia, gargalos que inviabilizam o acesso a cultura, esportes, lazer, consumo.
Até quando vamos continuar despejando automóveis nas nossas cidades?
É bem verdade que, nos últimos anos, investimentos em transporte de massa, contemplados pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e por linhas de financiamento como do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), têm sido impulsionados. A eletrificação da frota de ônibus de São Paulo é fruto de políticas assim.
No entanto, o privilégio ao automóvel é tão enraizado que segue no centro das políticas de fomento. A citada eletrificação de frotas de ônibus, por exemplo, segue em ritmo mais lento do que a ampliação da oferta e de facilidades para aquisição de carros de passeio, mesmo que elétricos. Grandes obras civis, como o túnel submerso entre Santos e Guarujá, o primeiro do gênero do país, ainda têm foco no escoamento do fluxo de automóveis, não do transporte coletivo.
Também em São Paulo, o projeto de terceira pista da Rodovia dos Imigrantes tem mais celeridade e apoio do que a ampliação e modernização da malha ferroviária entre a capital e o litoral, seja para o escoamento de cargas por trem para o Porto de Santos, seja para o transporte de pessoas.
No Paraná, quase meio bilhão de reais foram aplicados na construção de uma ponte estaiada sobre a Baía de Guaratuba, enquanto os municípios do litoral seguem com um precário sistema de ônibus intermunicipal. Outros R$ 290 milhões serão gastos com um viaduto na entrada oeste de Curitiba, sobre a BR-277, no bairro Orleans, com a promessa de “aliviar o trânsito” naquela região.
O culto ao automóvel é tão naturalizado que mesmo no espectro político progressista há pouca percepção do quanto se torra abrindo pistas para carro, em comparação à morosa expansão de modais de massa de transporte público.
Uma medida a incentivar sobremaneira o uso do transporte coletivo urbano é a tarifa zero. Há quase uma dezena de projetos em âmbito nacional, nesse sentido. A pauta entrou na agenda política, especialmente do ano passado para cá, porém é preciso amplificar e aprofundar ainda mais a discussão.
A isenção tarifária universal para se utilizar ônibus, VLT, metrô e trens urbanos tende a incentivar o uso do transporte coletivo. Por consequência, forçar investimentos que dêem conta da ampliação da demanda. Enfim, que coloquem o transporte público como ponto central, quando o tema é mobilidade urbana.
Wagner de Alcântara Aragão é jornalista e professor. Mestre em estudos de linguagens. Licenciado em geografia. Bacharel em comunicação. Mantém e edita a Rede Macuco.
Crédito da foto da página inicial: (Congestionamento recente em São Paulo) Paulo Pinto/ Agência Brasil.






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