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Cidades vivem epidemia de demolições; ‘Chega de Prédios’ quer um basta em São Paulo

  • Foto do escritor: Wagner de Alcântara Aragão
    Wagner de Alcântara Aragão
  • há 3 dias
  • 3 min de leitura


“Na chon”, o bordão de Dona Armênia, de volta às telas na reprise de Rainha da Sucata, parece ser também a obsessão do mercado imobiliário: na busca por mais terrenos para erguer torres e condomínios, tem devastado a paisagem urbana e destruído a memória urbana

 

No começo do mês, os indícios de que um dos edifícios mais icônicos da Avenida Batel, em Curitiba, está para ser demolido acendeu um alerta na capital paranaense. De pelo menos dois anos para cá, do dia para noite casas são postas abaixo e, no terreno, tapumes e cartazes anunciam um novo empreendimento. Mas, agora, ao avançar para o predinho rosa dos anos 1950, a onda de destruições mostra que não tem limites, e uma parcela da sociedade começa a perceber isso.

 

No litoral de São Paulo, a sanha do mercado imobiliário está tornando Santos, uma das mais verticalizadas cidades do país, em território ainda mais pontilhado de arranha-céus. Na falta de lotes disponíveis na área insular do município, as construtoras estão derrubando chalés e sobrados remanescentes. Quando nem estes restam mais, o mercado não titubeia: parte para cima dos legendários predinhos de bairros e casas antigas da zona intermediária.

 

Na capital paulista, alguns bairros são acometidos do mesmo problema vivenciado por Santos. A Vila Mariana é um deles: as investidas sobre proprietários de casas e sobrados beira o assédio, conforme recentemente demonstrou uma reportagem do Jornal da Tarde, da TV Cultura. Para não serem incomodados, moradores afixam no portão avisos em letras garrafais: “este imóvel não está à venda”.

 

Dez demolições por dia, em São Paulo

 

A mesma reportagem ressalta que em 2025 o número de alvarás para demolições foi recorde na cidade de São Paulo: quase 4 mil. “Em média, dez imóveis são demolidos por dia na capital paulista”, informa a matéria. Uma epidemia de derrubada de casas, prédios e outras edificações que acomete outras cidades do Brasil, e que não pode ser naturalizada.

 

Uma decisão, também agora de março, do Tribunal de Justiça de São Paulo, suspendendo novas autorizações de derrubadas e construções na capital, sinalizou que é possível – e necessário – pôr freios no mercado imobiliário. A suspensão atende ao pedido do Ministério Público do Estado de São Paulo, que vê ilegalidades no processo de revisão da lei de zoneamento do município.

 

É da cidade de São Paulo o movimento “Chega de Prédios”, outra demonstração – desta vez, vinda da população – de que é possível (e necessário) estabelecer limites à verticalização imposta pelas construtoras, sob conivência da maioria dos vereadores e prefeitos. O movimento vem crescendo e a tendência é a de que inspire iniciativas semelhantes em outros lugares.

 

Em Santos, perfis no Instagram como Blog Santos Antiga e Casas Antigas 013 igualmente reúnem cidadãos e cidadãs preocupados com a inércia da sociedade em proteger a paisagem e a vida urbana dos interesses financeiros e imediatos do mercado.

 

Na academia, uma pesquisa de doutorado, de autoria da arquiteta Jaqueline Fernández Alves, que se debruça sobre os exemplares de arquitetura moderna da cidade, adverte para a histórica falta de um inventário que possibilite à sociedade evitar que verdadeiras preciosidades venham ao chão.

 

“Na chon”, como diz o bordão de Dona Armênia de volta às telas com a reprise da novela Rainha da Sucata pela TV Globo, parece não ser só uma obsessão da personagem interpretada por Aracy Balabanian.

 

O mercado imobiliário, sob cumplicidade de segmentos hegemônicos da sociedade, demonstra não pensar em outra coisa se não pôr tudo “na chon” e, no lugar, erguer torres e torres que saturam as cidades, e expulsam os pobres e a classe média para cada vez mais longe das áreas centrais da cidade.

 

Em tempo: em junho do ano passado, o autor deste texto registrou queixa no Ministério Público do Estado de São Paulo pedindo medidas para evitar que o patrimônio arquitetônico, paisagístico, histórico e cultural de Santos seja destruído junto com a onda de derrubada de edificações. O MP-SP, porém, optou por arquivar o processo.

 

Mais informações

 

    • A história do predinho do Batel, de Curitiba, está contada no perfil jornalístico O Centro de Curitiba, no Instagram: www.instagram.com/ocentrodecuritiba

    • O perfil Blog Santos Antiga: www.instagram.com/blog_santos_antiga

    • O perfil Casas Antigas 013: www.instagram.com/casasantigas013

    • A reportagem do Jornal da Tarde, da TV Cultura, sobre as demolições em São Paulo: https://youtu.be/HqPfnJDJcCA


Wagner de Alcântara Aragão é jornalista e professor. Mestre em estudos de linguagens. Licenciado em geografia. Bacharel em comunicação. Mantém e edita a Rede Macuco.

 

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Imagem em destaque: demolição de casas na Rua Oswaldo Cruz, Boqueirão, Santos. Foto: Jaqueline Fernández Alves/ Blog Santos Antiga

 

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