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A diversidade de conhecimento como chave para o futuro do estado do Rio de Janeiro

  • Foto do escritor: Bianca Vasconcellos e Renata Lébre La Rovere
    Bianca Vasconcellos e Renata Lébre La Rovere
  • há 28 minutos
  • 5 min de leitura


É preciso olhar para o tecido de saberes que sustenta a produção regional e perguntar: quais conhecimentos temos, quais estamos perdendo e quais precisamos estimular? O futuro do RJ dependerá da capacidade de combinar e reinventar suas bases de conhecimento

Artigo produzido para a coletânea Opina Rio (número 7), coordenada por Bruno Leonardo Barth Sobral


Quando pensamos sobre o desenvolvimento do estado do Rio de Janeiro, quase sempre recorremos a indicadores tradicionais: PIB, taxas de crescimento, VAB (Valor Adicionado Bruto) da indústria, exportações. Esses números são, sem dúvida, relevantes. Mas há um aspecto menos tangível e, ao mesmo tempo, decisivo para compreender a economia fluminense: as bases de conhecimento que sustentam a estrutura produtiva.


O artigo “Diversidade das Bases de conhecimento das mesorregiões do estado do Rio De Janeiro: uma nova perspectiva na Compreensão da Estrutura produtiva”, publicado na revista Cadernos do Desenvolvimento Fluminense, propõe uma nova leitura sobre essa questão, analisando a diversidade de conhecimento presente nas mesorregiões do estado entre 2006 e 2019. Em vez de focar apenas nos setores produtivos, o trabalho investiga os tipos de conhecimento mobilizados no território.


A tipologia empregada classifica o conhecimento em três categorias: analítico, associado à ciência, pesquisa e desenvolvimento; sintético, ligado ao aprendizado prático, à experiência e ao know-how técnico; e simbólico, ancorado na cultura, nas artes, no design e nas identidades regionais.


Esse olhar desloca a atenção do que se produz para como se produz. Em particular, investigar os conhecimentos utilizados na base industrial de uma região permite compreender a sua trajetória de desenvolvimento. Consequentemente, a capacidade de articular e ampliar a diversidade de conhecimentos de uma região permite que esta diversifique sua produção.


Um exemplo ajuda a compreender esse ponto: imagine uma região que apresenta vantagem relativa ocupacional em técnicos eletrônicos de manutenção industrial voltados, por exemplo, à indústria automotiva. O conhecimento desses técnicos, que é parte da base sintética, não se restringe ao setor de origem. Pelo contrário, ele pode ser mobilizado para atrair e sustentar outras indústrias que dependem de competências semelhantes, como a indústria de eletrodomésticos, de equipamentos hospitalares, de telecomunicações ou mesmo de energia renovável.


Nesse sentido, a análise das bases de conhecimento de uma região permite estabelecer estratégias para romper com o lock-in produtivo, ou seja, a dependência desta região a determinados setores, e abrir novas possibilidades de diversificação econômica a partir de saberes já existentes no território.


O trabalho mostrou que, no período analisado, quase todas as mesorregiões do Rio de Janeiro perderam diversidade ocupacional em alguma das bases de conhecimento. A Região Metropolitana, como esperado, apresentou a maior diversidade, especialmente nas bases analítica e simbólica. No entanto, registrou perdas significativas na base sintética, aquela mais vinculada à indústria de transformação.


Esse dado dialoga diretamente com a conhecida crise industrial fluminense, em que setores tradicionais da manufatura perderam espaço e não foram substituídos por novas indústrias capazes de gerar empregos de qualidade.


O Sul Fluminense, ancorado na siderurgia e na indústria automotiva, destacou-se pela forte concentração na base sintética. O mesmo ocorreu no Norte Fluminense, especializado na cadeia do petróleo. Ambas as regiões, portanto, revelam uma dependência acentuada de setores específicos, incorrendo em riscos diante das transformações tecnológicas e ambientais globais.


A redução da diversidade do conhecimento destas regiões sugere que esses territórios podem enfrentar dificuldades para se adaptar a novas trajetórias produtivas caso continuem excessivamente dependentes de suas atividades predominantes.


Já regiões como o Centro Fluminense e o Noroeste se mostram estruturalmente frágeis. Com menor diversidade de conhecimento, essas regiões carecem de estratégias de políticas públicas que possibilitem saltos de desenvolvimento a fim de gerar bases de conhecimento. Sua estrutura ainda é fortemente dependente da agricultura, de indústrias de alimentos e de atividades pouco articuladas às novas dinâmicas da inovação.


Por fim, um caso curioso é o das Baixadas Litorâneas. Essa região apresentou crescimento expressivo na base sintética em meados da década de 2010, possivelmente ligado à expansão do setor petrolífero, mas posteriormente registrou perdas. Trata-se de um exemplo de como certas oportunidades, quando não acompanhadas de políticas adequadas, podem gerar ganhos temporários sem consolidar transformações estruturais.


O ponto central da pesquisa é a demonstração de que a diversidade de conhecimento é um ativo estratégico para o desenvolvimento regional. Regiões que conseguem combinar diferentes bases – analítica, sintética e simbólica – são mais capazes de inovar, resistir a choques externos e criar caminhos produtivos.


Isso ocorre porque a interação entre distintos tipos de saberes amplia o leque de possibilidades. A base analítica, ao aproximar ciência e pesquisa, favorece inovações radicais. A sintética, com sua ênfase em know-how técnico, sustenta melhorias incrementais e ganhos de produtividade. Já a simbólica, frequentemente negligenciada, pode ser fonte de diferenciação cultural, de design e de identidade territorial.


No caso do Rio de Janeiro, essa conclusão é particularmente relevante. Trata-se de um estado marcado por contrastes: ao mesmo tempo em que abriga setores de ponta, como a indústria petrolífera, a produção audiovisual e universidades de referência, convive com desindustrialização, desigualdades regionais e baixa diversificação produtiva em várias áreas.


As implicações desse diagnóstico são profundas para a formulação de políticas públicas. Por muito tempo, os debates sobre desenvolvimento regional no Rio de Janeiro oscilaram entre duas abordagens: de um lado, a aposta nas “vantagens comparativas naturais” de cada território; de outro, o foco em setores considerados de alta tecnologia. Ambas têm limitações. A primeira tende a cristalizar trajetórias, reforçando a dependência das regiões a setores já estabelecidos. A segunda ignora as especificidades locais.


A abordagem baseada em bases de conhecimento permite superar esse dilema. Ela mostra que o essencial não é escolher entre agricultura, indústria ou serviços, mas construir ambientes capazes de articular diferentes saberes. Em termos práticos, isso significa investir simultaneamente em: educação e pesquisa científica, para fortalecer a base analítica; formação técnica e tecnológica, para consolidar a base sintética; e indústrias criativas e culturais, para valorizar a base simbólica.


Além disso, é fundamental desenvolver políticas de conexão entre essas dimensões, estimulando interações entre universidades, empresas, comunidades e governos locais.

O estudo também levanta uma questão urgente: como preparar o estado do Rio de Janeiro para um futuro no qual a importância de setores extrativos e industriais tradicionais está sendo relativizada devido ao atual contexto de transição energética? A dependência do petróleo verificada na região Norte Fluminense e a importância da siderurgia, indústria fortemente poluente, para a região Sul, podem vir a se tornar problemas para estas regiões no futuro.


Nesse contexto, apostar apenas na manutenção de setores existentes é insuficiente. O que realmente importa é ampliar a diversidade de bases de conhecimento e direcionar o conhecimento existente a outros setores produtivos, criando assim condições para que novas trajetórias de desenvolvimento regional possam emergir. Isso inclui desde a economia digital e a biotecnologia até as indústrias criativas e de saúde.


É preciso olhar para o tecido de saberes que sustenta a produção regional e perguntar: quais conhecimentos temos, quais estamos perdendo e quais precisamos estimular? O futuro do estado dependerá da capacidade de suas regiões de não apenas preservar, mas também combinar e reinventar suas bases de conhecimento.


Se a diversidade for compreendida como ativo estratégico, o estado terá mais chances de construir novos caminhos para o desenvolvimento.


Bianca Vasconcellos tem Pós-Doutorado - (Desigualdades espaciais) CPDA/UFRRJ; é doutora em Políticas Públicas, Estratégia e Desenvolvimento - PPED/UFRJ; mestre em Desenvolvimento e Políticas Públicas - PPGDT/UFRRJ; e graduada em Ciências Econômicas -UFRRJ


Renata Lébre La Rovere é Professora Titular no Instituto de Economia da UFRJ

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